Ai essa interesseira!

“Ai essa interesseira, só se casou com o velho para lhe sacar o dinheiro.”

Quantas vezes já não ouvimos isto. É um engenho de enredo muito comum em novelas, romances e todo o tipo de filmes. E por alguma razão assim é.

Resulta, maravilhosamente.

Pelo menos a nível literário e artístico.

Uma jovem ambiciosa e bonita fisga um velhadas qualquer, para lhe sacar a herança toda. Talvez até esteja disposta a, digamos, auxiliar a precocidade da morte do homem. Um empurrãozinho aqui, umas gotinhas acolá.

No fim, os coitadinhos dos filhotes (muitas vezes, neste tipo de histórias, também eles não passam de escumalha interesseira) ficam completamente destituídos e têm de combater a madrasta maléfica para recuperarem o que é seu por direito.

Passemos, agora, ao mundo real. Uma pessoa, ao ser bombardeada por este tipo de estórias e mensagens morais, tende a desenvolver uma espécie de cinismo para com o mundo das relações amorosas.

“Só está com ele por causa do dinheiro. Que rameira!” (Para não usar uma panóplia de muitos outros termos bem menos técnicos ou simpáticos.)

Mas, porquê?

Agimos como se o velho em questão não passasse de uma criança— incapaz de tomar decisões racionais e completamente à deriva no mundo. É um homem adulto, tem olhos como nós temos (mesmo que já tenha sofrido de cataratas, presumo que possua meios suficientes para comprar uma suite de luxo num dos melhores hospitais privados do País); tem boca para se defender (o mesmo se aplica à necessidade de dentaduras postiças; deve ter umas dentuças bem mais apresentáveis que as minhas, este nosso velho); tem ouvidos para ouvir aquilo que dizem dele (com os avanços da ciência médica moderna, deve ter à disposição uma miríade de aparelhos auditivos que lhe conceda audição supersónica).

Se calhar (e eu sei que isto vai parecer uma ideia radical e herege), o velho esteja ciente que a boazona de vinte e cinco anos com quem acabou de se casar apenas o fez para lhe sacar algum dinheiro. E, talvez, e apenas talvez, o velho esteja satisfeito com a troca. A boazona de vinte e cinco anos têm a vidinha feita e o velho caquético vai passar a última e mais miserável década da sua vida agarrado a toda essa formosura.

Se formos a ver bem a coisa, o velho só se meteu nestas andanças porque está à procura de uma mulher que seria inacessível à maioria dos homens, sejam eles novos ou velhos. Não anda à procura de amor eterno (eternidade essa que, para ele, já não deve durar muito tempo). Ele, simplesmente (e perdoem-me o palavreado), quer uma gaja boa para mostrar aos amigos do facebook.

E porque não? Se tem dinheiro para gastar, que o gaste, foi ele que o ganhou (honestamente ou não).

Nunca compreendi muito bem esta ideia de amor verdadeiro na procura de um companheiro/a de vida (às vezes de uma noite basta).

Alguns de nós procuram cabelos ruivos, outros preferem loiros. Homens altos, mulheres atléticas.

“Eu cá prefiro um homem sensível e que está disposto a ouvir o que eu tenho para lhe dizer. Tem de ser compreensível e deve estar lá sempre para mim, nos melhores e piores momentos.”

“Eu gosto de uma mulher inteligente e decidida. Alguém que eu possa imaginar como sendo mãe dos meus filhos.”

(Ps: Imaginem as duas linhas de diálogo supraditas nas vozes mais estereotípicas de sempre, foi com esse intuito que as escrevi.)

Mas, meus amigos, eu tenho de me perguntar: Mas porque raio é que inteligência e sensibilidade são características mais nobres e áureas num parceiro romântico do que dinheiro ou juventude?

Lamento informar-vos, mas nem toda a gente é inteligente e sensível. A sério, acreditem em mim. Existe por aí muita gente que, por mais que tente, nunca será capaz de compreender equações diferenciais ou geopolítica militar. Mais vale tentar ensinar um chimpanzé a vestir fato e gravata para trabalhar numa repartição das finanças.

Sensibilidade e inteligência (entre tantos outros traços geralmente considerados louváveis) são tão arbitrários como algo tão rasco como ser um velho podre de rico, ou uma gaja nova com a figura perfeita.

Cada um quer o que quer, e gosta do que gosta. Alguns gostam de sentido de humor e criatividade, outros preferem contas bancárias na Suíça e quartos de hotel na Madeira durante o Réveillon.

Eu, cá, digo: desde que se parta de uma situação de honestidade, então que se vá atrás do que nos faz feliz. Pessoalmente, não me importava nada, mas mesmo nada, de me casar com uma ricaça prestes a bater a bota. Desde pequeno, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, que respondi da seguinte forma, à letra e sem excepção:

“Pá, quando for grande? É pá, acho que quero ser milionário reformado.”

 

 

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