As Pequenas Tiranias São as Piores

Há uns meses, estava eu de visita à terra que acolheu o meu tio durante a época do Estado Novo, devido a divergências ideológicas: A Suécia.

Numa conversa relativa ao estado das coisas aqui por Portugal, foi mencionado o aumento de impostos do tabaco e das bebidas alcoólicas na velha Lusitânia. A resposta dele, como não podia deixar de ser, foi:

— Acho muito bem. O tabaco só faz mal.

Isso deixou-me, de imediato, com uma profunda sensação de familiaridade. Foi uma resposta quase tão óbvia, que eu a consegui imaginar, antes de ele sequer a proferir. A ideia base é esta:

— Como não me afecta a mim, e eu até acho que esse comportamento é negativo ou imoral, eles que se lixem.

É uma reacção muito comum no ser humano, esta de: “se não me afecta a mim, então não é problema.”

Acho que muitos de nós já devemos ter lido, ou de alguma forma ouvido, o velho poema que descreve, de forma tão sucinta e acutilante, a mentalidade que permitiu a subida do regime Nazi ao poder (e perdoem-me a minha horrível paráfrase):

 

Primeiro vieram pelos Judeus. Mas, eu, como não era Judeu, nada disse.

Depois vieram pelos socialistas. Mas, eu, como não era…

Etc. Etc.

Depois vieram por mim e não restava ninguém para falar em minha defesa.

 

Bem sei que estou a sucumbir a uma qualquer falácia monumental ao comparar o actual estado da nossa democracia liberal com a Alemanha Nazi, mas considero importante colocar as coisas num contexto facilmente compreendido por todos.

Um regime totalitário ou opressivo nunca sobe ao poder saindo de rajada com as suas ideias mais… radicais, digamos. Por norma, começa devagarinho.

Empurram-nos um bocadinho e nós prontamente protestamos a invasão do nosso espaço privado. No entanto, se os opressores em questão forem inteligentes, sabem quando devem aguardar, até os ânimos revoltados acalmarem. Afinal, ninguém protesta para sempre; mais cedo ou mais tarde, a nossa atenção foca-se num outro qualquer problema mais imediato. Chegou, portanto, o momento de empurrar mais um bocadinho.

O processo repete-se, vezes sem conta, e quando damos conta, passinho a passinho, empurrão a empurrão, já nem conseguimos identificar a nossa posição inicial. Estamos, aliás, tão distantes do ponto em que começámos, que já não nos conseguimos recordar de alguma vez lá termos estado.

Este fenómeno, tanto quanto me parece, é universal e sempre o foi ao longo da história. Não venho para aqui com dramatismos relativos à subida ao poder de Estados totalitários. Pretendo, mais especificamente, incidir-me no dia-a-dia do comum mortal.

Imaginem um grupo de amigos, de trabalhadores, ou qualquer tipo de colegas. É natural que se estabeleçam hierarquias, de forma quase inconsciente, sem necessidade de serem discutidas. Um dos líderes do supradito grupo obriga um segundo a comportar-se ou a agir de uma determinada forma e, devido à superioridade da respectiva posição hierárquica, consegue levar a sua avante.

— Não me afecta a mim, ele que se lixe. Tiveste azar, amigo.

Esta resposta dos restantes membros do grupo cria um precedente imperdoável. A partir de agora, a opinião deste líder (seja ele legítimo ou autoproclamado), assume uma aura de autoridade. Afinal, se os restantes concordaram quando calhou aos outros, por que motivo haverão de oferecer uma resposta diferente quando o azar calha a um deles?

Aos poucos, a opinião individual de cada membro do grupo perde toda a sua relevância. A velha técnica de: “Dividir e Conquistar”.

Não escrevo isto com a intenção de produzir um qualquer manifesto esquerdista ou populista. Este texto é, aliás, produto de uma reflecção bastante egocêntrica.

Bem sei que é mais fácil deixar as decisões difíceis para outro alguém. Contudo, mesmo na presença de um líder bem definido, é extramente produtivo e benéfico realizar uma análise introspectiva das decisões que este toma, mesmo quando não existe possibilidade de as influenciar minimamente.

— Como não me afecta a mim, e eu nem gosto lá muito dele, ele que se lixe.

Talvez não seja ele a lixar-se. Talvez seja eu, ou tu; se não agora, então, no futuro. Quando permitimos que pensem e decidam por nós, que tratem os outros de uma forma que consideraríamos inaceitável caso fosse connosco, parece-me imperativo levantar a voz em protesto.

Passinho a passinho, empurrão a empurrão e, quando damos conta, já nem reconhecemos onde estamos.

 

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