Sinto-me tão velhinho (e ainda nem tenho 27)

Imaginem este cenário. Eu, sentado numa mesa de café, de fino na mão, rodeado por três outros companheiros com idades compreendidas entres os 17 e 21 anos, uma meia dúzia de anos abaixo minha própria idade. Seria de esperar uma confluência de conversas descabidas, piadas porcas e meditações sobre as senhoras que nos rodeiam.

Seria de esperar, mas, efectivamente, não foi o que se sucedeu.

Na realidade, eu acabo por ficar de olhar meio perdido, um olho numa partida de Eurobasquete que passava numa televisão de imagem granulada e outro a deambular pelas mesas em nossa volta.

Mas, porquê? Perguntam vocês. Qual é o motivo de toda essa melancolia entorpecedora.

A resposta é muito simples: Eu sou ainda relativamente novo, mas sinto-me velho.

Ao contrário de mim, os meus colegas focam as suas atenções, como lasers acutilantes, nos respectivos smartphones.

“Olha aqui esta gaja.”

“E tu já viste a parvoíce que este gajo da Casa dos Segredos fez?”

Ah… Longe estão os tempos da conversa acesa, da piada parva e da estupidez inebriada em torno de uma mesa de café. Por vezes, sinto que falamos uma língua diferente, à qual eu nunca foi introduzido, devido à minha faixa etária, ou, simplesmente, à minha personalidade que, em certos aspectos, pode ser considerada, por alguns, como sendo antiquada.

Chego mesmo a temer que, tal como num episódio de Simpsons, chegará a altura em que me tornarei invisível aos olhos daqueles que, ao contrário de mim, se embrenharam por completo nas maravilhas vorazes da tecnologia moderna.

Serei tecnofóbico?

Talvez… Acho que somos todos um pouco adversos aos avanços da sociedade. Ah e tal, aquela maquineta que eu não gosto, mas que parece apaixonar a maioria; ai aquela nova rede social em que toda a gente parece desperdiçar quantidades imensuráveis do seu tempo.

As gerações mais anciães, como os meus pais, os meus tios e os meus primos mais velhos já aceitaram esta inevitabilidade da vida. Acompanhamos o futuro, até certa altura, enquanto ainda somos jovens e temos uma mente aberta a tudo o que mundo tem para oferecer de novo. Mas, contudo, chega uma dada altura em que desistimos, por completo, nos tornamos irrelevantes e assumimos o nosso estatuto como relíquias de um passado recente.

A minha principal preocupação, um dilema quase existencial que eu debato comigo mesmo, todavia, é que eu sempre fiquei aquém de certas inovações sociais e tecnológicas.

Recordo-me, agora, com uma certa nostalgia divertida e, ao mesmo tempo, melancólica, de quando eu entrei para o ciclo e chegou a moda dos Nokias. Dos snakes, das dezenas de euros gastos a enviar mensagens para as namoradas, ou possíveis interesses românticos de uma juventude demasiado febril e ingénua para realmente compreender os caprichos, trabalhos e chatices do amor.

Tudo isto me passou ao lado. Para mim, o telemóvel não passava de uma ferramenta que eu, com algum desinteresse, utilizava para enviar informação relevante. Isto é, informação relevante para um puto de dez ou onze anos.

“Quando tiveres namorada vais compreender…” elucidava-me um companheiro, cuja maturidade imatura parecia ter chegado demasiado depressa.

Tenho de admitir que, ainda hoje, não o compreendo. Se uma namorada, ou eventual interesse romântico, demonstra a necessidade de um fluxo constante de comunicação electrónica, então é coisa para não durar muito tempo. Pelo menos, comigo. Tudo bem que se envie uma mensagem de vez em quando, ao longo do dia, um telefonema ou dois ao fim da noite. Todavia, eu cá prefiro o contacto directo. Torna-se muito mais prático, requerindo menos esforço e em muito menos tempo. O dia é demasiado curto para ser desperdiçado em:

“Então…”

“Tudo bem…”

“Já chegaste aí…”

“Já estás aqui?”

“Viste isto?”

“Viste aquilo?”

A minha mãe sempre me disse que eu tinha mentalidade de uma criança e o espírito de um velho rezingão, incapaz de compreender estas novas modas que consomem o tempo dos putos.

Ai… no meu tempo é que era…

Sou jovem, mas sinto-me um velho. Sendo honesto, nunca me senti de outra maneira.

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